Capsulite adesiva: como a ansiedade, o sono e o medo do movimento influenciam a recuperação
Resumo
A capsulite adesiva, frequentemente designada por frozen shoulder, é uma condição musculoesquelética caracterizada por dor e limitação progressiva da amplitude de movimento do ombro, com impacto significativo na funcionalidade e qualidade de vida. Embora as alterações físicas sejam centrais na apresentação clínica, a evidência recente demonstra que fatores psicológicos e psicossociais podem influenciar a perceção da dor, a incapacidade e a evolução da reabilitação.
Esta revisão narrativa pretende analisar a relação entre fatores como ansiedade, depressão, cinesiofobia, catastrofização e autoeficácia e a experiência clínica da capsulite adesiva, destacando as suas implicações para a fisioterapia. A literatura atual sugere que estes fatores não devem ser interpretados como causas isoladas da condição, mas como componentes que podem interagir com os fatores físicos e influenciar o curso clínico. Assim, uma abordagem biopsicossocial, associada a exercício terapêutico, educação e comunicação adequada, poderá contribuir para uma intervenção mais individualizada e centrada na pessoa.
Introdução
A capsulite adesiva é uma condição do ombro associada a dor e perda progressiva da amplitude de movimento, particularmente nas rotações externa e interna e na elevação. A limitação funcional pode dificultar atividades simples, como:
- Vestir
- Alcançar objetos
- Realizar tarefas domésticas
- Desempenhar determinadas funções profissionais
A intervenção em fisioterapia tem tradicionalmente valorizado a recuperação da mobilidade, a diminuição da dor e a melhoria da função. Contudo, a experiência clínica da dor não depende exclusivamente das alterações estruturais ou articulares. A forma como o indivíduo interpreta os sintomas, responde ao movimento e perceciona a sua capacidade de recuperação pode também influenciar a incapacidade.
Neste contexto, o modelo biopsicossocial permite compreender a capsulite adesiva como uma condição em que fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem. Uma revisão sistemática recente concluiu que fatores como medo relacionado com a dor, depressão, ansiedade e catastrofização podem apresentar valor prognóstico para diferentes resultados clínicos, reforçando a importância de uma avaliação mais abrangente (Brindisino et al., 2024a).
O objetivo desta revisão narrativa é analisar a influência dos principais fatores psicológicos e psicossociais na capsulite adesiva e discutir de que forma estes conhecimentos podem ser integrados na prática da fisioterapia.
Metodologia
Foi realizada uma revisão narrativa da literatura científica recente, privilegiando estudos publicados entre 2023 e 2026. Foram considerados os seguintes tipos de estudo, relacionados com capsulite adesiva, fatores psicológicos e psicossociais e intervenção ou prognóstico em fisioterapia:
- Estudos observacionais
- Estudos prospetivos
- Revisões sistemáticas
- Meta-análises
- Estudos de consenso
A análise procurou identificar os principais fatores psicológicos associados à dor, incapacidade e evolução clínica, bem como as suas implicações para a avaliação e intervenção fisioterapêutica.
Capsulite adesiva e modelo biopsicossocial
A compreensão da capsulite adesiva tem evoluído de uma perspetiva predominantemente estrutural para uma abordagem mais abrangente. Embora os fatores físicos sejam fundamentais para a apresentação clínica, o impacto da condição varia consideravelmente entre indivíduos com limitações de movimento semelhantes.
O consenso internacional publicado por Salamh et al. (2025) reforça precisamente esta perspetiva. Embora não tenha sido alcançado consenso relativamente aos fatores psicossociais como causas diretas do desenvolvimento da capsulite adesiva, vários fatores foram considerados relevantes para o curso e os resultados da condição, incluindo:
- Ansiedade
- Depressão
- Medo relacionado com o movimento
- Autoeficácia
- Stress
Desta forma, é importante distinguir entre:
Desenvolvimento da doença
Fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença.
Evolução e experiência clínica
Fatores que podem influenciar a sua evolução e experiência clínica. A evidência disponível apoia sobretudo esta segunda relação.
Ansiedade, depressão e estado emocional
A ansiedade e a depressão são alguns dos fatores psicológicos mais estudados na relação com a capsulite adesiva.
Revisão sistemática e meta-análise · 2026
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou uma associação entre depressão e capsulite adesiva, verificando uma maior probabilidade de depressão em indivíduos com esta condição (Chan et al., 2026).
Esta relação pode ser influenciada pela própria natureza da capsulite adesiva.
Estudo de coorte · 2024
Haroun et al. (2024) avaliaram indivíduos submetidos a libertação artroscópica por capsulite adesiva e verificaram que aqueles com ansiedade ou depressão apresentavam níveis superiores de dor antes da intervenção e no acompanhamento. Contudo, ambos os grupos apresentaram melhorias significativas, demonstrando que a presença de sofrimento psicológico não significa necessariamente uma recuperação desfavorável.
Assim, a ansiedade e a depressão devem ser encaradas como elementos relevantes da avaliação biopsicossocial, e não como explicações isoladas para a dor ou incapacidade.
Cinesiofobia, catastrofização e autoeficácia
A relação do indivíduo com o movimento assume particular importância na fisioterapia.
Cinesiofobia
Medo relacionado com o movimento devido à expectativa de dor ou lesão. Pode levar a uma menor utilização do membro e a uma redução da exposição às atividades que provocam desconforto.
Catastrofização da dor
Caracterizada por pensamentos negativos persistentes e uma tendência para interpretar a dor de forma ameaçadora.
Autoeficácia
A confiança do indivíduo na sua capacidade de lidar com os sintomas.
Fonseca et al. · 2025
Num estudo publicado por Fonseca et al. (2025), níveis superiores de cinesiofobia estiveram associados a maior incapacidade, enquanto níveis superiores de autoeficácia relacionada com a dor estiveram associados a menor dor e incapacidade.
Estes resultados sugerem que a confiança do indivíduo na sua capacidade de lidar com os sintomas poderá ser relevante para a recuperação funcional.
A catastrofização da dor também tem sido associada à experiência da capsulite adesiva. Brindisino et al. (2024a) identificaram possíveis associações entre catastrofização e resultados relacionados com dor e incapacidade. Contudo, estudos recentes apresentam resultados diferentes. Fonseca et al. (2025), por exemplo, não encontraram uma associação significativa entre catastrofização e dor ou incapacidade após o ajustamento das variáveis analisadas.
Esta variabilidade demonstra que os fatores psicológicos não devem ser avaliados de forma isolada nem utilizados para prever individualmente a evolução de cada doente.
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Marcar consultaHumor, suporte social e sono
Para além da ansiedade, depressão e medo do movimento, outros fatores também podem influenciar a experiência da capsulite adesiva.
Humor
Brindisino et al. (2025) observaram associações entre dor, alterações de humor, catastrofização e perceção de suporte social.
Suporte social
Indivíduos com menor suporte social apresentaram níveis superiores de dor, sugerindo que o contexto em que a pessoa vive pode ter importância na forma como enfrenta a condição.
Sono
O sono constitui igualmente um elemento relevante. A dor persistente pode interferir com o descanso, enquanto alterações do sono podem contribuir para uma maior perceção de fadiga e dificuldade em lidar com a dor.
Estudo prospetivo multicêntrico · 2026
Estudos recentes têm procurado avaliar a relação entre insónia, sensibilização central e resultados clínicos na capsulite adesiva, embora a evidência ainda seja limitada e inconsistente (Brindisino et al., 2026).
Estes dados reforçam a importância de compreender o doente para além da articulação afetada. Deve fazer parte da avaliação o impacto da condição em:
- Sono
- Trabalho
- Relações sociais
- Atividades quotidianas
Implicações para a fisioterapia
A identificação destes fatores apresenta implicações diretas para a prática fisioterapêutica.
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Avaliação inicial mais abrangente
A avaliação inicial não deve limitar-se à amplitude de movimento, força e intensidade da dor. Deve também procurar compreender:
- as atividades que o doente deixou de realizar;
- o seu receio relativamente ao movimento;
- as expectativas perante a recuperação;
- a confiança que apresenta na sua capacidade de melhorar.
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Educação e comunicação
A educação constitui uma componente essencial. Explicar a natureza da condição, a evolução esperada e a importância da participação ativa pode ajudar a reduzir interpretações excessivas da dor. Uma comunicação clara e empática permite também estabelecer objetivos realistas e adequados às necessidades individuais.
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Exercício terapêutico e exposição gradual
A intervenção deve continuar a incluir exercício terapêutico e recuperação progressiva do movimento, ajustados à fase clínica e à tolerância do indivíduo. A progressão deve procurar recuperar a função sem transformar a dor numa ameaça constante. Quando existe medo significativo do movimento, pode ser útil promover uma exposição gradual e controlada às atividades, aumentando progressivamente a confiança do doente.
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Promoção da autoeficácia
A promoção da autoeficácia deve igualmente fazer parte do processo. Em vez de o doente assumir um papel passivo, o fisioterapeuta pode ajudá-lo a:
- reconhecer progressos;
- estabelecer objetivos alcançáveis;
- compreender que a sua participação influencia o processo de recuperação.
-
Abordagem multidisciplinar
Quando os fatores psicológicos apresentam intensidade significativa ou interferem de forma marcada com a funcionalidade, poderá ainda ser adequada uma abordagem multidisciplinar, envolvendo outros profissionais de saúde.
Estudo transversal · 2024
Um estudo de Brindisino et al. (2024b), que comparou as necessidades dos indivíduos com frozen shoulder com as crenças dos fisioterapeutas, demonstrou a importância atribuída pelos doentes à competência técnica, mas também à empatia e à educação. Estes resultados reforçam a necessidade de uma relação terapêutica baseada simultaneamente no conhecimento clínico e na comunicação.
- Competência técnica
- Empatia
- Educação
Discussão
A evidência recente demonstra que os fatores psicológicos e psicossociais podem desempenhar um papel relevante na experiência da capsulite adesiva. Contudo, os resultados não são completamente consistentes entre estudos, existindo diferenças em:
- Instrumentos utilizados
- Populações avaliadas
- Momentos de avaliação
Esta heterogeneidade impede afirmar que ansiedade, depressão, cinesiofobia ou catastrofização sejam, por si só, responsáveis por uma pior evolução. É mais adequado considerá-los componentes de um sistema complexo no qual fatores físicos, psicológicos e sociais se influenciam mutuamente.
Para a fisioterapia, esta perspetiva não significa substituir a avaliação física por uma avaliação psicológica. Pelo contrário, significa integrar ambas.
A mobilidade articular continua a ser fundamental, mas a recuperação funcional depende também da capacidade do indivíduo para utilizar o membro nas atividades que considera importantes.
Conclusão
A capsulite adesiva deve ser compreendida para além das alterações de mobilidade e dor. A literatura recente sugere que os seguintes fatores podem influenciar a experiência da condição, embora a força e consistência dessas associações variem:
- Ansiedade
- Depressão
- Cinesiofobia
- Catastrofização
- Autoeficácia
- Humor
- Suporte social
- Sono
Na fisioterapia, a adoção de uma abordagem biopsicossocial permite uma avaliação mais individualizada e centrada na pessoa. Poderá contribuir para uma reabilitação mais completa a combinação de:
- Exercício terapêutico
- Educação
- Comunicação empática
- Progressão do movimento
- Promoção da autoeficácia
Ideia-chave
Mais do que avaliar apenas quanto o ombro se move, é necessário compreender como o indivíduo vive a dor, o que teme, o que deixou de fazer e quais as atividades que pretende recuperar.
Perguntas frequentes sobre capsulite adesiva e fatores psicológicos
O que é a capsulite adesiva (frozen shoulder)?
A capsulite adesiva, também conhecida por frozen shoulder ou ombro congelado, é uma condição do ombro associada a dor e perda progressiva da amplitude de movimento, sobretudo nas rotações e na elevação do braço. Pode dificultar atividades simples como vestir, alcançar objetos ou realizar tarefas domésticas.
A ansiedade ou a depressão causam capsulite adesiva?
A evidência atual não permite afirmar isso. Um consenso internacional de 2025 não chegou a acordo sobre os fatores psicossociais como causas diretas da capsulite adesiva. O que a literatura apoia é que fatores como ansiedade, depressão, medo do movimento, autoeficácia e stress podem influenciar a evolução e a forma como a condição é vivida.
Ter ansiedade ou depressão significa que a recuperação vai ser pior?
Não necessariamente. Num estudo de 2024 com pessoas operadas por capsulite adesiva, quem tinha ansiedade ou depressão apresentou níveis superiores de dor, mas ambos os grupos melhoraram de forma significativa. Estes fatores devem ser tidos em conta na avaliação, sem serem vistos como uma sentença para a recuperação.
O que é a cinesiofobia e como pode afetar o ombro?
A cinesiofobia é o medo do movimento por expectativa de dor ou lesão. Pode levar a pessoa a usar menos o braço e a evitar atividades que provocam desconforto. Num estudo de 2025, níveis mais altos de cinesiofobia estiveram associados a maior incapacidade em pessoas com capsulite adesiva.
O sono e o suporte social influenciam a dor na capsulite adesiva?
Podem influenciar. Um estudo de 2025 observou níveis superiores de dor em pessoas com menor perceção de suporte social. Quanto ao sono, a dor persistente pode interferir com o descanso e as alterações do sono podem dificultar a forma de lidar com a dor, embora a evidência sobre este tema ainda seja limitada e inconsistente.
Como é que a fisioterapia tem em conta os fatores psicológicos?
Através de uma abordagem biopsicossocial. Além da mobilidade, da força e da dor, a avaliação procura perceber o que a pessoa deixou de fazer, o receio que tem do movimento e as suas expectativas. A intervenção combina exercício terapêutico, educação, comunicação empática, exposição gradual ao movimento e promoção da autoeficácia. Quando se justifica, pode envolver outros profissionais de saúde.
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Referências
- Brindisino, F., Minnucci, S., Sergi, G., Lorusso, M., Struyf, F., & Innocenti, T. (2024a). Does the psychological profile of a patient with frozen shoulder predict future outcome? A systematic review. Physiotherapy Research International, 29(1), e2056.
- Brindisino, F., Sciscione, S., Andriesse, A., Cioeta, M., Struyf, F., & Feller, D. (2024b). Frozen shoulder: Subjects’ needs and perspectives and clinicians’ beliefs and management strategies: Do they align? A cross-sectional study. BMC Musculoskeletal Disorders, 25, 745.
- Brindisino, F., Rizzo, V., Dejaco, B., Andriesse, A., Verardo, A., & Turolla, A. (2025). Association between pain, stiffness, mood, catastrophizing, and perceived social support, in subjects with frozen shoulder: A cross-sectional study. Shoulder & Elbow, 18(1), 167–181.
- Brindisino, F., Silvestri, E., Fioretti, A., Pulina, F., Conteduca, J., Navarro Ledesma, S., Barbosa, G. M., & Struyf, F. (2026). Psychological factors, central sensitization, and insomnia as potential prognostic factors for short-term pain and disability in patients with frozen shoulder: A multicentric prospective single-cohort study. Pain Research and Management, 2026, e6298409.
- Chan, Y.-C., Chuang, S.-H., Chuang, T.-Y., Kuo, Y.-J., Cheng, S.-J., & Chen, Y.-P. (2026). The association between depression and frozen shoulder: A systematic review and meta-analysis. Journal of Back and Musculoskeletal Rehabilitation.
- Fonseca, R. N. S., Policastro, P. O., Medeiros Filho, J. F., Lucena, E. M. F., Kamonseki, D. H., & Barbosa, G. M. (2025). Association of psychological factors and sleep quality with activity-related pain and disability in individuals with frozen shoulder. Musculoskeletal Science and Practice, 78, 103366.
- Haroun, Y., Younis, A. S., Ebied, W. F., Hemida, M. A., & Khater, A. H. (2024). Impacts of preoperative anxiety and depression on pain and range of motion after arthroscopic frozen shoulder release: A cohort study. International Orthopaedics, 48(8), 2113–2119.
- Salamh, P., Stoner, B., Ruley, N., Zhu, H., et al. (2025). An international consensus on the etiology, risk factors, diagnosis and management for individuals with frozen shoulder: A Delphi study. Journal of Manual & Musculoskeletal Therapy, 33(4), 309–320.
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